quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

RESENHA CONTO “Marcas do Passado” de Babi Lacerda



Sinopse: Após o falecimento de sua avó, Alexandra herdou sua casa e abriu o próprio negócio, aparentemente levava uma vida comum e pacata, mas por baixo da superfície, havia um segredo terrível e que a consumia noite após noite. A insônia constante trazia junto com ela seus piores demônios, causando uma dificuldade extrema para diferenciar quais pesadelos eram reais ou não.
Alexandra conheceu muito cedo a verdadeira face do mal. A violência a atingiu como uma radiação química e uma vez exposta, a contaminação foi inevitável.
Sua alma já cansada e atormentada pelas dores do horror, reivindicava por paz, algo que lhe fora arrancado anos atrás. Para isso, ela precisava se vingar daquele que marcou brutalmente seu passado.

Nota: 5/5

Opinião: Babi Lacerda é a filha que Stephen King ainda não sabe que teve. Sabe aquela semana sem graça, quando tudo fica muito rotineiro e você não sabe o que fazer para sacudir a poeira? Esse conto é uma mão invisível que vai te agarrar pela garganta e te arrastar pelas páginas até o final.

Preparem-se para fortes emoções! Senti na pele toda a agonia da personagem, sua dor, sua confusão mental, fiquei perplexa e me emaranhei por dentre seus pensamentos desconexos, sua insônia, e assim como a personagem tive dúvidas se o que estava acontecendo era um sonho ou se era real. Senti meu sangue gelar em vários momentos, e confesso que em determinado momento um cisco caiu bem no meu olho. “Comecei a contabilizar as gotas do chuveiro que pingavam com uma certa lentidão, a atmosfera no quarto estava densa, o ventilador velho não estava sendo eficiente para refrescar as noites quentes e ainda por cima rangia, rasgando o silêncio da madrugada.” Gostei bastante das pitadas de humor negro e sarcástico, me peguei esboçando um leve sorriso maldoso ao ler. Sim, eu ri! Esse conto é uma montanha-russa de emoções.

Parece ótimo, não é? Tem mais, senta aqui um pouquinho... Não é um simples conto superficial meramente para entreter o leitor. Babi trás uma crítica social forte, sim, sem panos quentes! É um verdadeiro e absurdamente necessário soco na boca do estômago de uma sociedade hipócrita, onde ao invés de nos acolhermos, de termos empatia pelo próximo, apontamos nossos “dedos tortos, enrugados e trêmulos” uns aos outros. “As copas das árvores farfalharam suavemente, por um instante era como se ela pudesse me ouvir.”

DISPONÍVEL NA AMAZON E KINDLE UNLIMITED

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A ÚLTIMA A SABER


Acordei num pulo, assustada. O badalar insistente dos sinos fez minha cabeça latejar. Olhei para o relógio, 6:30 da manhã, certamente alguém morreu. Morávamos em uma cidade bem pequena no interior de Minas, daquelas com uma grande igreja na praça central, com tudo  localizado ao seu redor, onde todo mundo conhece todo mundo. Me sentei na cama e levei a mão ao queixo, pensativa: “Quem será que morreu”? Eu tinha pego uma gripe forte e ficado de cama por um bom tempo, com isso não estava a par dos acontecimentos. Hoje apesar do susto, finalmente tinha acordado bem-disposta. Meu corpo não doía, a febre tinha passado, a tosse também. O médico tinha dito que logo, logo melhoraria, mas aparentemente, “logo, logo” para ele não tinha o mesmo significado para mim.

Fui até a cozinha, sabia que minha mãe ficaria feliz em ver que melhorei, mas a encontrei prostrada na mesa aos prantos.

O que foi, mãe? Por que está chorando?
Ela não respondeu, apenas retomava o choro dentre os soluços. Meu irmão mais velho então entrou e a abraçou. Me senti desconfortável ali observando aquela cena sem saber o motivo do desalento de minha mãe. Meu irmão também estava com um semblante pálido, seus olhos inchados. Meu pai apareceu na porta.
— Vamos, está na hora.
Ao ouvir estas palavras minha mãe proferiu um grito abafado e intensificou seu pranto. Meu irmão que tentava consolá-la sinalizava com os olhos para que ela se levantasse e o seguisse. Meu pai permanecia imóvel na porta, com um semblante blasé que lhe era característico, mas que eu sempre sabia detectar quando por detrás da sua inexpressividade existia uma dor recôndita. Esse foi um desses momentos, ele exalava dor, muita dor.
Era óbvio que algum conhecido, alguém próximo de nós tinha falecido. Examinei as possibilidades dentro de minha própria mente. Talvez a Dona Cecília, grande amiga de minha mãe, mas já uma senhora de idade. Sim, só podia ser, mas o que será que aconteceu com ela? Era uma senhora lúcida e muito ativa, apesar de sua idade avançada.
Minha se levantou e junto de meu irmão se dirigiu até a porta. Eu os segui em silêncio. Morávamos próximo à igreja, e logo na entrada vários conhecidos vieram ao nosso encontro.
— Meus pêsames. Que Deus a tenha! — disse um senhor amigo de meu pai.
Foi quando avistei Dona Cecília, ela se aproximou de minha mãe e a abraçou.
— Tão jovem! Tinha uma vida toda pela frente! — disse ela.
Entramos na igreja e vi então um caixão aberto, bem lá na frente. Me espremi por dentre as pessoas para me aproximar, até finalmente conseguir ver quem estava dentro. Uma criança de cerca de 12 anos com a tez pálida e opaca. Era eu mesma.