Acordei
num pulo, assustada. O badalar insistente dos sinos fez minha cabeça
latejar. Olhei para o relógio, 6:30 da manhã, certamente alguém
morreu. Morávamos em uma cidade bem pequena no interior de Minas,
daquelas com uma grande igreja na praça central, com tudo
localizado ao seu redor, onde todo mundo conhece todo mundo. Me sentei na cama e
levei a mão ao queixo, pensativa: “Quem será que morreu”? Eu
tinha pego uma gripe forte e ficado de cama por um bom tempo, com
isso não estava a par dos acontecimentos. Hoje apesar do susto,
finalmente
tinha acordado bem-disposta. Meu corpo não doía, a febre tinha
passado,
a tosse também. O médico tinha
dito
que logo, logo melhoraria, mas aparentemente,
“logo, logo” para ele não tinha o mesmo significado para mim.
Fui
até a cozinha, sabia que minha mãe ficaria feliz em ver que
melhorei, mas a encontrei prostrada na mesa aos prantos.
—
O
que foi, mãe? Por que está chorando?
Ela
não respondeu, apenas retomava o choro dentre os soluços. Meu irmão
mais velho então entrou e a abraçou. Me senti desconfortável ali
observando aquela cena sem saber o motivo do desalento de minha mãe.
Meu irmão também estava com um semblante pálido, seus olhos
inchados. Meu pai apareceu na porta.
—
Vamos, está na hora.
Ao
ouvir estas palavras minha mãe proferiu um grito abafado e
intensificou seu pranto. Meu irmão que tentava consolá-la sinalizava com os olhos para que ela se levantasse e o seguisse. Meu
pai permanecia imóvel na porta, com um semblante blasé que lhe era
característico, mas que eu sempre sabia detectar quando por detrás
da sua inexpressividade existia uma dor recôndita. Esse foi um
desses momentos, ele exalava dor, muita dor.
Era
óbvio que algum conhecido, alguém próximo de nós tinha falecido.
Examinei as possibilidades dentro de minha própria mente. Talvez a
Dona Cecília, grande amiga de minha mãe, mas já uma senhora de
idade. Sim, só podia ser, mas o que será que aconteceu com ela? Era
uma senhora lúcida e muito ativa, apesar de sua idade avançada.
Minha
se levantou e junto de meu irmão se dirigiu até a porta. Eu os
segui em silêncio. Morávamos próximo à igreja, e logo na entrada
vários conhecidos vieram ao nosso encontro.
—
Meus pêsames. Que Deus a tenha! — disse um senhor amigo de meu
pai.
Foi
quando avistei Dona Cecília, ela se aproximou de minha mãe e a
abraçou.
—
Tão jovem! Tinha uma vida toda pela frente! — disse ela.
Entramos
na igreja e vi então um caixão aberto, bem lá na frente. Me
espremi por dentre as pessoas para me aproximar, até finalmente
conseguir ver quem estava dentro. Uma criança de cerca de 12 anos
com a tez pálida e opaca. Era eu mesma.