quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A ÚLTIMA A SABER


Acordei num pulo, assustada. O badalar insistente dos sinos fez minha cabeça latejar. Olhei para o relógio, 6:30 da manhã, certamente alguém morreu. Morávamos em uma cidade bem pequena no interior de Minas, daquelas com uma grande igreja na praça central, com tudo  localizado ao seu redor, onde todo mundo conhece todo mundo. Me sentei na cama e levei a mão ao queixo, pensativa: “Quem será que morreu”? Eu tinha pego uma gripe forte e ficado de cama por um bom tempo, com isso não estava a par dos acontecimentos. Hoje apesar do susto, finalmente tinha acordado bem-disposta. Meu corpo não doía, a febre tinha passado, a tosse também. O médico tinha dito que logo, logo melhoraria, mas aparentemente, “logo, logo” para ele não tinha o mesmo significado para mim.

Fui até a cozinha, sabia que minha mãe ficaria feliz em ver que melhorei, mas a encontrei prostrada na mesa aos prantos.

O que foi, mãe? Por que está chorando?
Ela não respondeu, apenas retomava o choro dentre os soluços. Meu irmão mais velho então entrou e a abraçou. Me senti desconfortável ali observando aquela cena sem saber o motivo do desalento de minha mãe. Meu irmão também estava com um semblante pálido, seus olhos inchados. Meu pai apareceu na porta.
— Vamos, está na hora.
Ao ouvir estas palavras minha mãe proferiu um grito abafado e intensificou seu pranto. Meu irmão que tentava consolá-la sinalizava com os olhos para que ela se levantasse e o seguisse. Meu pai permanecia imóvel na porta, com um semblante blasé que lhe era característico, mas que eu sempre sabia detectar quando por detrás da sua inexpressividade existia uma dor recôndita. Esse foi um desses momentos, ele exalava dor, muita dor.
Era óbvio que algum conhecido, alguém próximo de nós tinha falecido. Examinei as possibilidades dentro de minha própria mente. Talvez a Dona Cecília, grande amiga de minha mãe, mas já uma senhora de idade. Sim, só podia ser, mas o que será que aconteceu com ela? Era uma senhora lúcida e muito ativa, apesar de sua idade avançada.
Minha se levantou e junto de meu irmão se dirigiu até a porta. Eu os segui em silêncio. Morávamos próximo à igreja, e logo na entrada vários conhecidos vieram ao nosso encontro.
— Meus pêsames. Que Deus a tenha! — disse um senhor amigo de meu pai.
Foi quando avistei Dona Cecília, ela se aproximou de minha mãe e a abraçou.
— Tão jovem! Tinha uma vida toda pela frente! — disse ela.
Entramos na igreja e vi então um caixão aberto, bem lá na frente. Me espremi por dentre as pessoas para me aproximar, até finalmente conseguir ver quem estava dentro. Uma criança de cerca de 12 anos com a tez pálida e opaca. Era eu mesma.