segunda-feira, 20 de abril de 2020

RESENHA Metamorfose de Franz Kafka (1915)




Gregor Samsa acorda um dia e se vê transformado em um inseto. Inspirado por Notas do Subsolo de Dostoiévski “Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto”.

Gregor é um caixeiro-viajante, vive de trem em trem, hospedando-se em hotéis baratos e se alimentando mal e com isso sustenta sua família que passam a vê-lo como um inseto, um mero provedor. Seu chefe também o vê como um inseto, mas o pior de tudo é que ele mesmo passa a se ver como um inseto. Esse fato me lembra a frase de Sartre “O inferno são os outros” que se refere-se ao fato de que não podemos escapar do olhar e do julgamento alheio, não podemos controlar como somos vistos, mas o pior é que corremos o risco de passar a nos enxegar através do olhar do outro.

Gregor sofre todo tipo de abuso em seu trabalho e por parte da família, ou seja, é tratado como um inseto. A família o isola em um quarto sujo e sem móveis e o alimenta de restos e comida podre. O mais triste é que Gregor não vê maldade nos atos da família: o pai o abusa fisicamente, a irmã psicológicamente e a mãe o negligencia.

Afinal, o que é que nos torna humanos? Kafka responde: A arte!
“Poderia ser realmente um animal, quando a música tinha sobre si tal efeito?”

sábado, 15 de fevereiro de 2020

RESENHA Livro Notas do Subsolo de Fyodor Dostoiévski (1864)


RESENHA Livro Notas do Subsolo de Fyodor Dostoiévski (1864)

Sinopse: O conto é um excerto das memórias de um homem que vive em São Petersburgo, esse homem não tem nome e ficou conhecido como “O homem subterrâneo”. É um trabalhador comum, uma pessoa normal, que nasce, cresce, trabalha, adoece e morre, sem fazer muito alarde, vivendo uma vida medíocre, sem fortes emoções, porém agora, doente, e beirando o final de sua vida, o personagem relembra e analisa sua trajetória humana, com a boca espumando, com uma forte ira internalizada, afinal, trata-se de um sujeito enquadrado perfeitamente dentro dos padrões e morais da sociedade, ou seja “adoçado” pela vida em sociedade.

“Todo homem decente de nossa época é e deve ser covarde e escravo. É a sua condição normal.”
“Um homem inteligente do século dezenove precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada.”


Considerações sobre o livro: O Homem subterrâneo tornou-se uma influência para diversas personagens criadas em trabalhos posteriores. Alguns exemplos disso são Nikolai Levin, personagem do romance Anna Karenina, de Tolstoi, a personagem Mersault, do romance O Estrangeiro, de Camus; Gregor Samsa, personagem do romance A Metamorfose, de Kafka; e Moses Herzog, personagem do romance Herzog, de Saul Below. Foi também, forte influência no filme “Taxi Driver” de Martin Scorcese.

Nota: 5/5

Opinião: É uma obra curta, porém não é uma leitura rápida, simplista, muito menos leviana. Cada linha é um soco na boca do estômago, o linguajar é rebuscado sem ser pedante, as digressões profundas mas não incompreensíveis, e mais que tudo, um relato acessível, impossível não se identificar: coisas de Dostoiévski… Sem dúvida é um “não morra sem ler”.





terça-feira, 14 de janeiro de 2020

RESENHA Livro O Velho Barão Inglês de Clara Reeve (1778)



Sinopse: A história segue as aventuras de Sir Philip Harclay, que retorna à Inglaterra medieval para descobrir que Arthur Lord Lovel, o amigo de sua juventude, está morto. Seu primo Walter Lord Lovel havia conseguido a propriedade e vendeu o castelo da família ao barão Fitz-Owen. Na casa do barão, estavam seus dois filhos e sua filha Emma, ​​vários jovens senhores sendo educados com os filhos, e Edmund Twyford, filho de um camponês, que havia sido trazido para morar com eles. Quando Sir Philip o viu, ficou impressionado com a semelhança dele com seu velho amigo. O cavaleiro que se propõe a levá-lo para sua própria família, já que ele não tinha filhos, mas Edmund preferiu ficar com o barão, recebendo no entanto uma garantia de que, se alguma vez ele precisasse, Sir Philip renovaria sua oferta.

A narrativa se passa no intervalo de quatro anos. Devido a sua natureza e qualidades superiores, Edmund atraíra a inimizade dos sobrinhos de seu benfeitor e a frieza de Sir Robert, o filho mais velho do barão. No entanto, William, o irmão mais novo, é seu fiel amigo. Com o passar dos anos, Edmund acaba se apaixonado por Lady Emma, a filha do barão.

Considerações sobre o livro: Este livro foi escrito inspirado em “Castelo de Otranto” de Horace Walpole, uma tentativa de reescrever, reestruturar e realinhar a história.

Nota: 4/5

Opinião: Li depois de ler “Castelo de Otranto” e foi como se minhas preces tivessem sido atendidas. Tudo que eu estava com vontade de fazer em termos de estrutura, desenvolvimento de personagens e da própria história Clara Reeve fez em “O velho barão inglês”. Não é uma cópia, é mais uma inspiração, os personagens e o contexto são outros. Para ser sincera, o livro de Walpole é bem mais gótico, tem mais acontecimentos macabros, enquanto o foco de Reeve é mais voltado para os personagens e como se relacionam. Não vou dar spoiler, mas gostei mais do final da história de Walpole. Confesso, no entanto, que li Walpole com muita persistência, já Reeve li com enorme prazer sem ver o tempo passar. A única coisa que me irritou em Reeves foi um uso exacerbado de adjetivos, chega a ficar forçado o tanto que o herói é: bonzinho, caridoso, lindo, formoso, cheiroso, virtuoso, humilde… Enfim, vocês entenderam, né? Ainda sim, torci por ele, mesmo já estando convencida que ele era legal nos primeiros 100 adjetivos, e aguentei os restantes 765 ao longo do livro. Ah, apesar dos adjetivos ela não descreve os personagens fisicamente, ou seja, ele é lindo, formoso, maravilhoso, mas não sei como é a fuça dele. Não me importei, como sabemos que ele é inglês eu imaginei o John Lennon. Fora ter que “imagine all the people” gostei bastante do livro e recomendo uma leitura casada, tipo John e Yoko, entre O Castelo de Otranto e O velho barão inglês.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

RESENHA LIVRO “O CASTELO DE OTRANTO” (1764) por Horace Walpole



Sinopse: O livro conta a história de Manfred, senhor do castelo de Otranto, e sua família. O livro começa no dia do casamento de seu filho Conrad com a princesa Isabella. Pouco antes do casamento, porém, Conrad é esmagado e morto por um elmo gigante que cai do alto. O evento inexplicável é particularmente agourento à luz de uma antiga profecia de que "o castelo e o título de senhor de Otranto deixariam de pertencer à atual família se o proprietário real se tornasse grande demais para habitá-lo".

Considerações sobre a obra: O Castelo de Otranto é um romance de 1764 e foi o primeiro romance da literatura gótica. Na primeira edição Walpole simulou tratar-se de uma tradução de um manuscrito italianomedieval. Na edição subsequente reconhece a autoria e explica que tentou mesclar os dois tipos de romance, o antigo, dominado pela imaginação, e o moderno, fiel à realidade. Resulta uma mistura do sobrenatural, visões fantasmagóricas, fatos inexplicáveis, por um lado, com as paixões, intrigas e psicologia próprias das pessoas de carne e osso, por outro lado. A mansão neogótica do autor em Stawberry Hill pode ser visitada até hoje. "Uma fantasia que transcorre na Idade Média cavalheiresca, o romance lida com emoções violentas, levando seus personagens ao limite psicológico. Crueldade, tirania, erotismo, usurpação — tudo isso se tornou, com o cenário, típico das narrativas góticas".


Nota: 3/5

Opinião: Resolvi ler a obra pelo fato de ter sido o primeiro romance gótico já escrito, ou seja, a primeira história que traz eventos sobrenaturais, fantasmas, suspense, e consequentemente inspirou vários autores depois dela, consolidando os gêneros de terror e suspense na literatura. Confesso, no entanto, que apesar da obra ser visionária não gostei da escrita do autor. Vários dos acontecimentos são “jogados ao vento” sem muita lógica ou sentido. Como era obcecado pela era medieval, descreve objetos desta época com louvor, mas deixa a desejar na descrição de itens importantes para o contexto da história. Enfim, a história em si é muito boa, os primeiros capítulos são morosos, mas a partir do terceiro é impossível parar de ler até saber o final. Dizem que o autor não tinha o intuito de escrever uma grande obra nem de ser levado a sério e talvez por isso a obra tenha esses “buracos”. De qualquer maneira recomendo muito que leiam, tanto curiosos pela história, quanto escritores e interessados por literatura, ler essa obra me abriu os olhos para as diversas vicissitudes que inspiradas nela compõe a literatura contemporânea.

Ah! Um pequeno spoiler para o próximo post: a autora Clara Reeve escreveu “O velho Barão Inglês” em 1777, obra com o subtítulo “um romance gótico” que consolidou de vez o gênero. Seu livro é inspirado na história do Castelo de Otranto. Essa professora de inglês se propões a reescrever a história amarrando todos os fios soltos e partes que deixaram a desejar no outro. Aguardem que vem resenha desse em breve...

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

REVIEW from the Short story “Scars from the Past” by Babi Lacerda




Synopsis: After the death of her grandmother, Alexandra inherited her house and started her own business, apparently leading an ordinary and quiet life, but beneath the surface there was a terrible secret that consumed her night after night. Constant insomnia brought along with it the worst possible demons, causing her to have an extreme difficulty in distinguishing which nightmares were real or not.
Alexandra was introduced to the true face of evil very early on. Violence hit her like chemical radiation and once exposed, contamination was inevitable.
Her soul, already tired and tormented by the pains of horror, claimed for peace, something that had been snatched from her years ago. In order to do so, she needed to take revenge on the one who brutally stained her past.

Rating: 5/5

Impressions: I couldn’t help but think that Babi Lacerda is the daughter Stephen King doesn't know he had, yet. She writes in much the same style and with fluidity, though she has a voice of her own, filled with darkness and a pinch of sarcasm and black humor. You know that boring week, when you get so caught up in your everyday routine and don't seem to know what to do to snap out of it? Well, this story is an invisible hand that will grab you by the throat and hurl you through the pages.

Brace yourselves! Not recommended for those with a weak stomach or a heart condition. Throughout the story I was able to feel all the agony of the main character, her pain, her mental confusion and I was perplexed and entangled in her disconnected thoughts, insomnia, and just as the character, I had doubts as to whether what was happening was a dream or not. I felt my blood run cold at various instances, and I confess that at one point a it brought me on the verge of tears. “I started to count the slowly dripping drops of the shower, the atmosphere in the room was heavy, the old fan was not efficient to cool down the hot nights, and moreover it creaked, tearing through the silence of the dawn.” I even found myself sneering as I read. Yes, it made me laugh! It is a roller coaster of emotions.

Sounds great, doesn't it? There's more. Now you might want to sit down... It's not a simple superficial story merely made to entertain the reader. The author makes a strong social criticism. She throws a necessary punch right on the stomach of a hypocritical society, where instead of embracing ourselves, we point our “crooked, wrinkled and trembling fingers” at each other. "The treetops rustled softly, for a moment it was as if she could hear me."

AVAILABLE AT AMAZON AND KINDLE UNLIMITED

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

RESENHA CONTO “Marcas do Passado” de Babi Lacerda



Sinopse: Após o falecimento de sua avó, Alexandra herdou sua casa e abriu o próprio negócio, aparentemente levava uma vida comum e pacata, mas por baixo da superfície, havia um segredo terrível e que a consumia noite após noite. A insônia constante trazia junto com ela seus piores demônios, causando uma dificuldade extrema para diferenciar quais pesadelos eram reais ou não.
Alexandra conheceu muito cedo a verdadeira face do mal. A violência a atingiu como uma radiação química e uma vez exposta, a contaminação foi inevitável.
Sua alma já cansada e atormentada pelas dores do horror, reivindicava por paz, algo que lhe fora arrancado anos atrás. Para isso, ela precisava se vingar daquele que marcou brutalmente seu passado.

Nota: 5/5

Opinião: Babi Lacerda é a filha que Stephen King ainda não sabe que teve. Sabe aquela semana sem graça, quando tudo fica muito rotineiro e você não sabe o que fazer para sacudir a poeira? Esse conto é uma mão invisível que vai te agarrar pela garganta e te arrastar pelas páginas até o final.

Preparem-se para fortes emoções! Senti na pele toda a agonia da personagem, sua dor, sua confusão mental, fiquei perplexa e me emaranhei por dentre seus pensamentos desconexos, sua insônia, e assim como a personagem tive dúvidas se o que estava acontecendo era um sonho ou se era real. Senti meu sangue gelar em vários momentos, e confesso que em determinado momento um cisco caiu bem no meu olho. “Comecei a contabilizar as gotas do chuveiro que pingavam com uma certa lentidão, a atmosfera no quarto estava densa, o ventilador velho não estava sendo eficiente para refrescar as noites quentes e ainda por cima rangia, rasgando o silêncio da madrugada.” Gostei bastante das pitadas de humor negro e sarcástico, me peguei esboçando um leve sorriso maldoso ao ler. Sim, eu ri! Esse conto é uma montanha-russa de emoções.

Parece ótimo, não é? Tem mais, senta aqui um pouquinho... Não é um simples conto superficial meramente para entreter o leitor. Babi trás uma crítica social forte, sim, sem panos quentes! É um verdadeiro e absurdamente necessário soco na boca do estômago de uma sociedade hipócrita, onde ao invés de nos acolhermos, de termos empatia pelo próximo, apontamos nossos “dedos tortos, enrugados e trêmulos” uns aos outros. “As copas das árvores farfalharam suavemente, por um instante era como se ela pudesse me ouvir.”

DISPONÍVEL NA AMAZON E KINDLE UNLIMITED

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A ÚLTIMA A SABER


Acordei num pulo, assustada. O badalar insistente dos sinos fez minha cabeça latejar. Olhei para o relógio, 6:30 da manhã, certamente alguém morreu. Morávamos em uma cidade bem pequena no interior de Minas, daquelas com uma grande igreja na praça central, com tudo  localizado ao seu redor, onde todo mundo conhece todo mundo. Me sentei na cama e levei a mão ao queixo, pensativa: “Quem será que morreu”? Eu tinha pego uma gripe forte e ficado de cama por um bom tempo, com isso não estava a par dos acontecimentos. Hoje apesar do susto, finalmente tinha acordado bem-disposta. Meu corpo não doía, a febre tinha passado, a tosse também. O médico tinha dito que logo, logo melhoraria, mas aparentemente, “logo, logo” para ele não tinha o mesmo significado para mim.

Fui até a cozinha, sabia que minha mãe ficaria feliz em ver que melhorei, mas a encontrei prostrada na mesa aos prantos.

O que foi, mãe? Por que está chorando?
Ela não respondeu, apenas retomava o choro dentre os soluços. Meu irmão mais velho então entrou e a abraçou. Me senti desconfortável ali observando aquela cena sem saber o motivo do desalento de minha mãe. Meu irmão também estava com um semblante pálido, seus olhos inchados. Meu pai apareceu na porta.
— Vamos, está na hora.
Ao ouvir estas palavras minha mãe proferiu um grito abafado e intensificou seu pranto. Meu irmão que tentava consolá-la sinalizava com os olhos para que ela se levantasse e o seguisse. Meu pai permanecia imóvel na porta, com um semblante blasé que lhe era característico, mas que eu sempre sabia detectar quando por detrás da sua inexpressividade existia uma dor recôndita. Esse foi um desses momentos, ele exalava dor, muita dor.
Era óbvio que algum conhecido, alguém próximo de nós tinha falecido. Examinei as possibilidades dentro de minha própria mente. Talvez a Dona Cecília, grande amiga de minha mãe, mas já uma senhora de idade. Sim, só podia ser, mas o que será que aconteceu com ela? Era uma senhora lúcida e muito ativa, apesar de sua idade avançada.
Minha se levantou e junto de meu irmão se dirigiu até a porta. Eu os segui em silêncio. Morávamos próximo à igreja, e logo na entrada vários conhecidos vieram ao nosso encontro.
— Meus pêsames. Que Deus a tenha! — disse um senhor amigo de meu pai.
Foi quando avistei Dona Cecília, ela se aproximou de minha mãe e a abraçou.
— Tão jovem! Tinha uma vida toda pela frente! — disse ela.
Entramos na igreja e vi então um caixão aberto, bem lá na frente. Me espremi por dentre as pessoas para me aproximar, até finalmente conseguir ver quem estava dentro. Uma criança de cerca de 12 anos com a tez pálida e opaca. Era eu mesma.